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Reatividade à trela: o cão que se atira e ladra a outros cães

Reatividade à trela: o cão que se atira e ladra a outros cães

Um cão que rebenta contra outros cães à trela normalmente não é dominante nem mau — tem medo ou está frustrado e preso numa corda, sem saída. A solução são a distância, a exposição calma e mudar como se sente o gatilho, não a correção.

É uma das experiências mais penosas para um dono: um passeio que, mal aparece outro cão, se transforma numa cena de rosnados, puxões e ladridos no fim da trela. É fácil lê-la como agressividade ou má educação, e fácil sentir-se julgado por isso. Mas a maior parte da reatividade à trela não é dominância nem um cão maleducado — é um cão assustado ou frustrado, preso à trela sem poder afastar-se, e o manejo que ajuda é quase o oposto da correção a que se é tentado a recorrer.

Porque acontece

Um cão solto que encontra outro de que não está seguro tem escolhas: aproximar-se, cheirar, afastar-se, ir-se embora. Um cão à trela não tem nenhuma — não pode criar distância, por isso as únicas ferramentas que restam são as barulhentas. Alguns têm medo e passam à ofensiva porque não podem fugir; outros são o oposto, desesperados por cumprimentar e frustrados pela corda que os detém; e em ambos os casos o comportamento treina-se e é pago, porque ladrar muitas vezes faz o outro cão passar e desaparecer. O cão aprende que a cena funciona, e repete-a.

O limiar é a ideia toda

O conceito mais útil é o limiar — a distância a que o teu cão nota outro cão mas ainda consegue pensar, aceitar um petisco e manter o controlo. Mais perto, o cão despenha-se na reação, onde não há aprendizagem e o hábito só é treinado. Mais longe, o cão está consciente mas gere, e é o único sítio onde se progride. Cada sessão, cada passeio, consiste em manter o teu cão abaixo do seu limiar, o que costuma significar muito mais distância do que os donos imaginam ao início.

Mudar como se sente o gatilho

Não se argumenta um cão para fora do medo, mas pode mudar-se o que o gatilho prevê. Abaixo do limiar, o aparecimento de outro cão é seguido, de cada vez, de algo maravilhoso — um jorro de frango, os bons petiscos guardados só para isto. Feito com constância, o cão deixa de ver outro cão como uma ameaça e começa a vê-lo como o que faz chover comida, e a emoção de fundo passa do temor a algo mais próximo da esperança. É lento e pouco vistoso, e é o que de facto funciona, muito mais do que qualquer tentativa de corrigir a explosão. Apoia-se nos mesmos princípios de como os cães aprendem de qualquer outro trabalho.

Gerir os passeios para não o treinar

Enquanto o retreino avança, o teu papel é impedir que as explosões aconteçam, porque cada uma te faz recuar. Passeia a horas calmas e por rotas abertas onde vês os problemas a chegar, atravessa a rua, contorna outros cães em vez de os cruzares de frente, e está pronto a dar meia-volta. Um caminho estreito com um cão a vir de frente é o pior caso; dá-te espaço para manter a distância de que precisas. Uma semana de passeios calmos abaixo do limiar faz mais do que um mês de explosões diárias.

Equipamento e manejo

O equipamento conta menos que a distância mas conta. Uma peitoral bem ajustada e uma trela solta deixam o cão mover-se sem pressão acrescentada; uma trela tensa transmite a tua tensão tal como está, e um cão já pronto a lutar lê-a no instante. Evita sobretudo, num cão reativo, as coleiras de estrangular e de picos: acrescentam dor no momento exato em que aparece o outro cão, o que num reator por medo associa o gatilho a dor e pode piorar tudo. Mantém a voz leve e o corpo relaxado, e resiste ao instinto de encurtar a trela e enrijecer, que anuncia ao cão que há algo por que enrijecer. As competências de trela solta sobrepõem-se ao andar sem puxar.

O que não fazer

Não punas a reação. Gritar, dar puxões ou acrescentar de outro modo algo desagradável quando o outro cão está à vista ensina ao cão que os outros cães fazem acontecer coisas más — a associação exata que tentas desfazer. Não forces cumprimentos na esperança de que os cães o « resolvam »; um cão assustado arrastado a um cara a cara aprende que não pode confiar que o mantenhas em segurança. E não inundes o cão de gatilhos para o dessensibilizar mais depressa — a exposição acima do limiar é treino, não terapia. Ler a linguagem corporal do teu cão diz-te quando está a gerir e quando passou do limite.

Quando procurar ajuda

Uma reatividade instalada, a piorar ou dirigida a pessoas merece um treinador qualificado e gentil, que possa construir e guiar um plano para o teu cão concreto. Merece também uma consulta veterinária, porque a dor torna os cães mais reativos — um cão que dói tem o pavio mais curto — e uma anca dorida ou dentes maus por detetar podem fazer parte do quadro. Procurar ajuda não é fracasso; a reatividade é um problema comum e tratável, e um bom treinador encurta um caminho longo.

Porque é que o meu cão ladra e se atira a outros cães à trela?

Normalmente porque a trela lhe tira a capacidade de criar distância, por isso a um cão assustado ou frustrado só lhe restam as opções barulhentas. O comportamento reforça-se porque ladrar tende a fazer o outro cão passar e desaparecer. É muito mais vezes medo ou frustração do que agressividade ou dominância.

O que significa « abaixo do limiar »?

É a distância a que o teu cão consegue ver outro cão mas manter-se calmo o suficiente para pensar, aceitar um petisco e responder-te. Mais perto, o cão despenha-se na reação e não há aprendizagem. Todo o trabalho útil se faz abaixo do limiar, o que costuma significar mais distância do que os donos imaginam.

Devo deixar o meu cão reativo cumprimentar outros cães?

Não o arrastando a um cara a cara. Um cão assustado forçado a cumprimentar aprende que não pode confiar que o mantenhas em segurança, o que piora a reatividade. Trabalha abaixo do limiar e faz da distância calma, não do contacto forçado, o objetivo; alguns cães reativos nunca gostam de cumprimentos e não precisam deles.

O meu cão é agressivo ou só reativo?

A maior parte da reatividade à trela é medo ou frustração mais do que verdadeira agressividade — o cão quer distância ou quer cumprimentar e não pode, e a trela prende-o. O comportamento pode parecer feroz sem o cão pretender magoar. Em qualquer dos casos a abordagem é a mesma, e um treinador pode avaliar um cão de que duvidas.

Punir a reatividade à trela ajuda?

Não — costuma piorá-la. Acrescentar algo desagradável quando aparece o outro cão ensina-lhe que os outros cães trazem coisas más, o que reforça o medo que tentas reduzir. Mudar o que o gatilho prevê, de mau para bom, é o que de facto desloca o comportamento.

Quanto tempo demora a corrigir a reatividade à trela?

De semanas a muitos meses, conforme o cão e a tua constância. A chave é evitar as explosões acima do limiar, porque cada uma te faz recuar, e emparelhar sem cessar o gatilho com coisas boas. É um trabalho lento com recaídas reais, e um treinador gentil pode acelerá-lo.

Um cão reativo à trela pode curar-se por completo?

Muitos melhoram até os passeios serem calmos e geríveis, e alguns perdem a reatividade por completo, mas para outros passa a ser um problema bem gerido em vez de desaparecido — um cão que gere a uma distância que antes não suportava. Qualquer dos dois é um bom resultado. A constância, evitar treinos acima do limiar e, se preciso, um treinador gentil decidem até onde chega cada cão.